Não vou perder tempo dizendo quem eu sou. Não adiantaria nada. Somos iguais: muito ego e pouco tempo. Então, apenas navegue por estes escritos diVersos e Prosa.  

RISCO NO TEMPO


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Quinta-feira, Junho 02, 2005 :::
 


Então pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas.

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.


[SONETO DO DESMANTELO AZUL, Carlos Pena Fillho]





Sr. e Srta. Nós,

a foto foi um presente. depois eu posto aqui a referência.

::: posted by JOHNNY MARTINS at 2:26 AM


Terça-feira, Maio 31, 2005 :::
 
Mãe Natureza

"Um homem que tem um pente e uma árvore
Serve para a poesia"

[Matéria de Poesia, MANOEL DE BARROS]

Sr. e Srta. Nós,

estava eu lá na aula de Análise da Narrativa, ocupando meus dois neurônios em saber se fotografia era uma narrativa ou não, quando ela me mostrou uma foto: o rosto de uma garota partido pela iluminação de fachos de luz. "num é lindo? esse fotógrafo é cego!"

sabe aqueles sustos que a gente tem quando se surpreende encontrando outro ser humano? pois bem, foi assim. e ainda com um sorriso acompanhando!

acho que foi por isso que lembrei de Adriana Dória quando vi certa cena outro dia.

antes, é importante descrevê-lo: está sempre em frente ao Hospital da Restauração, apenas de bermuda e todo sujo. tem um olhar que é uma mistura de medo e desconfiança. nunca ouvi sua voz. também nunca o vi pedindo esmola. fica sempre por ali, fazendo uma coisa e outra em troca de comida dada pelos donos das barracas [eu acho]. uma amiga comentou uma vez que pensou em trazer-lhes algumas roupas. o dono de uma das barracas desaconselhou: "pode trazer bermuda ou calça, Dona. só não traga camisa. ele rasga tudinho. é doido!"

há dois dias, chovia. quando passei, ele estava todo encolhido entre as raízes de uma árvore. como ele tem a pele escura e árvore também, os dois se misturavam numa só imagem, parecia um ninho abrigando aquele corpo em posição fetal. queria estar com minha câmera pra registrar aquela cena! foi quando lembrei de Adriana Dória: ela iria olhar pra foto e dizer: "é linda!" não que ela achasse a miséria linda. é que sinto que ela iria ser cúmplice do meu querer olhar o outro do lado de lá da margem.

ontem, quando passei em frente ao Hospital, pela hora do almoço, chovia de novo. de repente, vi uma mão mergulhar na água suja do esgoto e apanhar um "coração-de-negro" que havia caído. e antes que meu pensamento pudesse alcançar qualquer realidade, ele levou o fruto à boca!

abaixo, a tela "Café da Manhã de Um Homem Cego", de PABLO PICASSO.




::: posted by JOHNNY MARTINS at 6:47 AM




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