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Sexta-feira, Dezembro 31, 2004 :::
 


[Auto-retrato, de Roy Lichtenstein]

A Roupa Nova do Prisioneiro

Havia algo cruelmente ridículo nele. Verão infernal e ele de calça preta e terno quadriculado (preto e cinza). Tomou o nosso ônibus. Era magro, negro, rosto sério demais, ar de ter passado privações, uma bíblia na mão (daquelas cujas páginas têm as bordas douradas). Sim, para ele ― que andava de ônibus enfiado num terno ― o céu-paraíso deveria ser um lugar com estradas de ouro.
Deu-me abuso.

Pensei: se ele começar a pregar pra mim, vou mostrar pra ele aquela passagem de Deuteronômio que fala do apedrejamento de mulheres e questionar a considerada "palavra de Deus". Serei elegante: "senhor, me surpreende que o senhor, um homem tão inteligente, considere isso a palavra de um deus justo!" Mas, e se ele não fosse inteligente? Eu mentiria. Diria isso mesmo assim, como sarcasmo. Nesse caso, eu seria grosseiro, mas havia um bom motivo.
Toca o celular dele:
― Oi?
― ...
Havia um tom de censura e ameaça na voz. Só ouvíamos um lado da conversa.
― Estou... passando na Imbiribeira... Por quê?... Por quê?
― ...
― Onde está sua mãe?
― ...
― A essa hora por aí! Vá pra casa!
― ...
― Quando eu chegar em casa a gente conversa!

Deu-me pena do homem magro com a bíblia na mão, dentro do ônibus, usando terno no meio de um magnífico dia de verão.

((o.-)) Ouvindo Marvin Gaye: "Inner City Blues" (Live).


::: posted by JOHNNY MARTINS at 2:13 AM




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