Sexta-feira, Outubro 29, 2004 :::
Adiamento (14-4-1928)
Álvaro de Campos
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei á secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha
infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e práctico
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose publica que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...
Sim, o porvir...
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hoje fiquei pensando no porvir e senti um misto de angústia e medo... decidi seguir em frente.
::: posted by JOHNNY MARTINS at 1:26 AM
Terça-feira, Outubro 26, 2004 :::
ando sem inspiração pra esse blog, mas ainda não vou dá-lo por encerrado... tenho postado mais no meu fotolog [ www.fotolog.net/risconotempo ].
A Balada do Fumo
Cada curva de fumo tem um som,
Tão vago e tão subtil como o gerar
Dum perfume suave, ou dum tom,
Que apenas comece a palpitar.
Torce-se o fumo sempre, e os ruídos
Das suas crispações podem-se ouvir;
Mas não bastam apenas os ouvidos
Para os compreender, para os sentir.
Alguma coisa em nós, muito interior,
Um sentido criado, p`ra que a dor
E a voz de tudo o que há seja escutada;
Dá-nos a percepção dos sons das curvas,
Da música ideal das ondas turvas
Do fumo, onde está presa uma balada.
JOÃO LÚCIO
(Poeta algarvio nasceu em 1880 e faleceu em 1918. Obra poética: O Meu Algarve, Descendo, Nas Asas do Sonho e postumamente Espalhando Fantasmas)
::::::::::: tô quase parando de fumar.
::: posted by JOHNNY MARTINS at 12:11 PM