Não vou perder tempo dizendo quem eu sou. Não adiantaria nada. Somos iguais: muito ego e pouco tempo. Então, apenas navegue por estes escritos diVersos e Prosa.  

RISCO NO TEMPO


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Sábado, Junho 19, 2004 :::
 
Joh era daquela qualidade de gente carente de bom-senso, tá ligado? pois muito bem, Joh distribuía seu número de telefone à torta e à direita e, portanto, não estranhou quando recebeu, numa noite de densa chuva, uma mensagem de um "número desconhecido" em seu celular. perguntar o nome lhe pareceu deselegante e pouco atencioso. ocorreu, então, a seguinte seqüência de mensagens:

[no. desconhecido]: e aí, Joh, o que vc tá achando desse frio?
[joh]: queria esquentar as coisas por aqui!
[no. desconhecido]: pois é, o cobertor não tá mais dando conta!
[joh]: e então? tô em casa!
[no. desconhecido]: vc não quer abrigar um menor descamisado?
[joh]: "descamisado", sim! "menor", não!
[no. desconhecido]: risos. tem razão. tô morrendo de frio! que sugestões vc me dá?
[joh]: venha aqui para conhecer as alternativas!
[no. desconhecido]: proponha as suas e eu proponho as minhas!
[joh]: venha! vamos quebrar esse gelo!
[no. desconhecido]: olha que eu vou, mesmo não tendo mais carro!"
[joh]: pois venha! já tô demitindo esses cobertores incompetentes!
[no. desconhecido]: aqui na minha casa tem um picador de gelo ótimo!
[joh]: e vc mora onde mesmo?
[no. desconhecido]: tô em Jardim São Paulo ainda.

após 10 minutos sem resposta:

[no. reconhecido]: o que houve? o frio congelou seus dedos?

moral da história [ou: "se conselho fosse bom"]: sabe aquele seu ex-namorado-filho-da-puta-cafajeste? pois bem, antes de deletar o telefone dele do seu celular, certifique-se de que ele também fez o mesmo com o seu!

"se um dia eu pudesse ver
meu passado inteiro
e fizesse parar de chover
nos primeiros erros,
sol!
o meu corpo viraria sol!
minha mente viraria
sol!
mas só chove, chove,
chove, chove
!"

[Kiko Zambianchi, lembra dele, Sr. Nós?]

::: posted by JOHNNY MARTINS at 3:52 AM


Quinta-feira, Junho 17, 2004 :::
 
na verdade, na verdade, apesar de todas as coisas que escrevi sobre o dia dos namorados, aquele meu dia foi muito massa!

moral da história: não se deve cuspir pra cima.

economia de feirante: escrevo de madrugada porque o acesso é mais barato. sim, Sr. Nós, ainda sou uma das vítimas das empresas de telefonia. mas, tenho fé que chegará o dia em que essa exploração vai acabar e voltaremos a ter nossa própria fogueira pra mandar sinais de fumaça com mensagens às pessoas que amamos (ou não), como faziam nossos antepassados. usuários de telefone do mundo, uni-vos!

people are strange: hoje [ontem], fui almoçar com Marconi. cheguei atrasado, pra variar, mas dessa vez a culpa foi da chuva. odeio guardas-chuvas e apetrechos afins. depois de esperar muitos minutos que a chuva parasse, Márcia me emprestou a sombrinha dela. pintosíssima: azul-celeste com florzinhas brancas [tipo margaridas] e eu todo de preto. quando cheguei ao restaurante, encontrei Marconi sentando com outro cara que eu nunca tinha visto nem na feira de vender batatas, como diz minha avó. o homem não parava de falar e Marconi respondia com economia de palavras. achei estranho, pois Marconi é sempre muito carinhoso e atencioso com os amigos e não costuma ser distante nem travar diálogos fáticos [ao dicionário, Sr. Nós!]. eu tava morrendo de fome e fiquei meio disperso, mas comecei a prestar atenção no papo quando o cara mencionou que tinha estudado lingüística. não consigo mais lembrar direito da "conversa", mas o interessante é que o desconhecido tinha uma forma surpreendente de encadear os assuntos, passando de lingüística a seu emprego numa empresa de aviação, com um encadeamento muito lógico. disse que teve oportunidade de viajar o mundo todo, mas não quis [!]. me ocorreu que o cara não regulava bem do juízo, mas afastei a idéia, sempre me policiando os preconceitos. o desconhecido falava sem parar e eu gosto de pessoas que falam sem parar porque eu mesmo às vezes falo pouco, de modo que é legal quando alguém preenche o silêncio. na verdade, eu tinha um monte de coisas pra falar com Marconi, como sempre, mas tava morrendo de fome, e ocupei minha boca com algo mais "urgente". quando o cara finalmente terminou seu monólogo e foi embora, Marconi fez o seguinte comentário: "acho que esse cara é meio seqüelado! ele sentou aqui e começou a falar dele!" eu também tinha pensado o mesmo, mas depois eu fiquei refletindo: que mal há em conversar com alguém que tá sentado almoçando junto conosco? as pessoas são estranhas.

PECADO E CAPITAL (vaidade): no final da tarde, eu estava indo estudar a obra Dublinenses, de James Joyce, quando passei pelo Viaduto Joana Bezerra, a pé. vi uma mulher sentada no chão. acho que ela morava ali, pois tinha um pano grande que ia da parede do viaduto até o chã, formando uma pequena cabana. perto havia uma daquelas carroças em que as pessoas carregam papel que apanham na rua. a mulher estava penteando os cabelos, muito pretos e longos. cabelos bonitos! tenho certeza de que presenciei uma das cenas mais poéticas da minha cidade: aquela mulher sem "nada", cuidando dos cabelos! bem que Oscar Wilde dizia: "apenas pessoas superficiais não se preocupam com as aparências!" entenda como quiser, Sr. Nós. tudo isso acontecia... enquanto eu estava indo estudar os Dublinenses!

"Mundo, vasto mundo! e se eu me chamasse Raimundo? seria uma rima, não seria uma solução!" [isso é Drummond, Sr. Nós!]

::: posted by JOHNNY MARTINS at 2:21 AM


Terça-feira, Junho 15, 2004 :::
 
AMOR MATADOR: encontrei logo dois hoje: um no século XIII e outro no século XX:

1o. MATADOR:

"Pois naci nunca vi Amor
e ouço d'el sempre falar.
Pero sei que me quer matar
mais rogarei a mia senhor
que me mostr' aquel matador
ou que m'ampare d'el melhor
."

Nuno Fernandes Torneol

2o. MATADOR:

"A arte é uma mentira que nos faz compreender a verdade. É preciso mentir para ser verdadeiro."
Pablo Picasso (1881-1973), pintor espanhol. tela "Matador Luis Miguel Dominguin"


::: posted by JOHNNY MARTINS at 2:04 AM


Segunda-feira, Junho 14, 2004 :::
 
São Sebastião [Reiner Maria Rilke]

Como alguém que jazesse, está de pé,
sustentado por sua grande fé.
Como mãe que amamenta, a tudo alheia,
grinalda que a si mesma se cerceia.

E as setas chegam: de espaço em espaço,
como se de seu corpo desferidas,
tremendo em suas pontas soltas de aço.
Mas ele ri, incólume, às feridas.

Num só passo a tristeza sobrevém
e em seus olhos desnudos se detém,
até que a neguem, como bagatela,
e como se poupassem com desdém
os destrutores de uma coisa bela.


(Tradução: Augusto de Campos)

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achamento: cheguei do teatro. fui ver a peça "angu de sangue": é porrada no peito! bem montada, músicas interessantes e atores ótimos! recomendo. sábado que vem é o último dia. corram! senti vontade de ouvir Opus número 25, de Chopin! peguei todos os discos de música clássica e os coloquei perto de mim. sim, Sr. Nós, eu ouço música clássica! parece excêntrico, mas não é. garanto. entre os disco, achei uma música chamada "Polovtsian Dances", de um tal Borodin. também recomendo, especialmente para domingos chuvosos como este.

coisa estranha: São Sebastião era um soldado romano que foi morto a flechadas porque protegia os cristãos da perseguição romana. a Igreja Católica fez dele santo. isso sim é excêntrico!

eu concordo com Renato Russo: "Acho que gosto de São Paulo" [a cidade dos meus sonhos!], "E gosto de São João" [é o meu aniversário!], "Gosto de São Francisco" [por motivos óbvios!], "E São Sebastião" [clique no link ao lado e descubra o porquê. esta tela foi pintada em 1615 por um artista plástico chamado Guido Reni]: St Sebastian GUIDO RENI.jpg

::: posted by JOHNNY MARTINS at 4:43 AM


Domingo, Junho 13, 2004 :::
 
Sem data pra comemorar: ontem foi o dia em que escolheram celebrar os namorados [invenção puramente consumista -- e, portanto, vazia -- já que "namorar" é exatamente viver os dias de modo especial], observei os namorados procurando neles uma atitude ou palavra que me trouxesse uma amostra de um amor profundo, um amor de entrega, de desejar acima de tudo o bem do outro/a. Minha busca durou o dia todo e entrou pela madrugada. Não vi um gesto sequer desse amor. Refleti: será que eu mesmo posso oferecer um amor assim? Sinto que posso e por isso permaneço na busca. Quero estar longe da hora em que vou deixar de acreditar nisso.

De Novo, O Coração

Dos meus doces fui tangido pelas moscas
E agora, de mim, só restam vãos
Estoques

Nem de líquidos corrediços me deixaram ser
Nem de sons, Nem de toques
De restos descuidados na calçada

Nem de gangorras me atiraram
Nem de lama me mancharam
Nem de golpes de espada

Essa dor de não ter sentido
O susto da flecha arremessada
Deixa-me ver no pulso
Essa marcha
Uniforme
De uma vida
que

me
diz: PARADA!


[anexo a tela "Dois Adolescentes", de Salvador Dali] Two Adolescents DALI.jpg

::: posted by JOHNNY MARTINS at 5:07 PM




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